O enfarte do Miocárdio foi fulminante. O vasto homem morreu quase instantaneamente. A última imagem que fica dele, tirando o cadáver no caixão, no dia do funeral, é a da sua vasta figura caída no chão, de lado e de Sunga azul-celeste como único vestuário, olhos abertos, boca escancarada e golfadas de sangue que dela saem. Não há espasmos, tremores, nada. Só o escuro, viscoso líquido que cheira a Cobre, embora vagamente, cobre o parquet, qual mortalha côr-de-vinho, embora porque sangraria da boca uma vítima de enfarte do Miocárdio é algo que se nos escapa.
Para ele, tinha-se acabado tudo. Para os que cá ficam, não. O vasto homem deixara a viúva, Íris Covas, uma pseudo-negociante de arte com pretensões de Jet-Set, mas posses de classe média-baixa, sozinha, com dois filhos, Manuel Silvestre, o mais velho, excêntrico ao ponto de mudar legalmente o seu nome para Newman Zero, o seu pseudónimo internético; e a mais nova, Alexis Romeu, comentadora política na imprensa. Alexis tinha uma relação com Bruno Gesso, o algarvio mais influente do país (dizia ele...), e o casal poucas vezes se encontrava, segundo a prima Natália Vidal, consultora financeira que tinha ganho experiência financeira suficiente na Bolsa para trabalhar em exclusivo para a abastada (dizia ela...) Mary O'Dey, britânica de nascimento e portuguesa por opção.
Do outro lado da família, havia pessoas ainda mais interessantes (que é como quem diz, polémicas...), como a tia Rosete Manteigas, delegada de propaganda médica, e sua filha Odete, que lhe seguia as pisadas, profissionalmente. Rosete e Odete eram unha com carne com o casal de afilhados de Íris, Mário (Mário, não. Senhor Mário. Ninguém conseguia tratar o homem por tu, ninguém sabia explicar porquê...), e sua esposa São José, segurança privada que fazia uns biscates como "cobranças difíceis". Tinham um cão sem raça definida, mas pêlo abundante a quem chamaram Jesus Cristo, nome que levantava demasiadas sobrancelhas, por isso foi abreviado para Grande J.C. . O senhor Mário, São José e a restante família, no entanto, gravitavam em órbita de dois distintos (dizia a família...) personagens, Pedro e Adelaide Yudo, cheios de conhecimentos influentes, muito cosmopolitas e viajados (diziam eles...), mas que na realidade passavam muito mais tempo presos em Vale de Judeus por burlas e fraudes que em liberdade.
Mas nada é aquilo que parece, e vigaristas havia mais, na família.
Mas isso é uma outra história, para uma outra ocasião...
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