sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Júpiter / Saturno

     

Com pompa e circunstância foi celebrado o regresso ao país do casal Yudo, Pedro & Adelaide. Sempre que isso sucedia, a família ia (quase) toda á estação ferroviária esperá-los, submissos e fiéis, sorrisos tatuados no rosto e rasgados elogios impressos no espírito, que só desapareciam quando se iniciava a batalha.

A “batalha” era o debate que todos tinham uns com os outros para saber a casa de quem iam eles almoçar nesse dia. “Á minha”, dizia um. “Não, á minha. Á tua já foram há seis anos”, respondia outro. “Não, á minha, que o Faisão já está no forno”, metia um terceiro. Por fim, os Yudos intervinham, apaziguavam e se decidiam pela casa mais próxima da estação.
Depois, não só iam eles os dois, mas toda a gente que os tinha lá ido esperar, e voltavam os sorrisos tatuados e os elogios impressos, a submissão e a fidelidade.
A verdade, no entanto, era nua, crua e outra.  
Para começar, os Yudos não regressavam do estrangeiro coisa nenhuma. Tinham liberdade condicional de Vale de Judeus, onde eram clientes regulares por uma miríade de burlas e esquemas de engano, subterfúgio e vigarice. Passavam anos a fio sem vir cá fora e, quando a conseguiam, á liberdade condicional, era graças a muito suborno lá dentro. É claro que, quando os subornados percebiam que o dinheiro, ou os favores, não vinham, os Yudos eram caçados e aprisionados novamente, num prazo máximo que não excedia os 3 meses.
     As únicas pessoas a quem eles conseguiam enganar sempre era a família, que lá os ia receber á estação, onde eles diziam ter chegado de Londres, Paris, Nova Iorque ou Roma, quando na realidade vinham era da prisa para o terminal, entrando por uma porta de um comboio acabado de chegar e saindo pela outra, defronte da família. O resto era teatrinho.
     E, para terminar, a adoração da família, os sorrisos e OE elogios eles próprios tinham um propósito. A hora depois do almoço, quando os Yudos abriam as malas de viagem que consigo traziam e a malta toda quase se perfilava para receber as prendas, recuerdos e souvenirs que os dois lhes tinham trazido, se bem que como tinham eles tempo para comprar, roubar ou seja-lá-o-que-fôr, prendas, recuerdos e souvenirs, é outra coisa que se nos escapa á compreensão.
     Era um acordo subentendido: a família deixava-se ser enganada na condição de as prendas, recuerdos e souvenirs continuassem a surgir de dentro daquelas mágicas malas de viagem tão pesadas que pareciam transportar corpos de 12 pessoas esquartejadas lá dentro.
Isto até ao dia em que aquele velho axioma entrou em acção: “Pode-se enganar muita gente por pouco tempo ou pouca gente por muito tempo. Não se pode é enganar toda a gente todo o tempo”. O dia, mais precisamente, em que Manuel Silvestre, graças a dizer o que queria, ouviu o que não queria, e descobriu a verdade.
     Mas isso é uma outra história, para uma outra ocasião...

Sem comentários:

Enviar um comentário