sábado, 14 de abril de 2012

Tantas vezes vai o cântaro á fonte...

     A Ovelha Negra, espécime rara entre os ovídeos mas comum entre famílias, é sempre motivo de interesse por ter protagonismo em estórias hilariantes, inovadoras e originais, principalmente porque, apesar do herbívoro cognome, não vai em carneiradas.
     Motivo de interesse, bem entendido, para os outros, o resto, o mundo em geral. No seio da família são persona non grata e assunto a ser ignorado e evitado como se a dita e negra ovelha não existisse.
     Em termos leigos, uma ovelha negra é como uma zanga por causa de partilhas: em todas as famílias há uma.
     No caso em questão, esse papel cabia a Manuel Silvestre, excêntrico, maluco, psicopata, preguiçoso, despassarado, pedrado, bêbado, lunático e a um passo de ser trancado em uma qualquer instituição psiquiátrica, diziam eles. E, de início, até tinham razão.
     Ora bem, todos os pais acham que os seus filhos são especiais, os melhores, o supra-sumo da batata. Não há criança no mundo que supere a sua. Os pais de Manuel levaram esse conceito á letra e quiseram saber até que ponto era o especial o seu rebento. Levaram-no muito novo para ser testado para saberem se era uma daquelas crianças sobredotadas. Os testes foram inconclusivos e os pais, dotados de bom-senso e lógica, decidiram que, se o filho não era um génio, só podia ser louco. E, desde esse dia em diante, foi essa a ideia que foi incutida em Manuel, com tal ênfase e insistência que, durante muitos anos, quando a criança se portava mal, a ameaça de estimação era "olha que te vou internar no Júlio de Matos!".
     Talvez também devido a essa premissa enraizada, ou do facto de viverem no centro da cidade, perigosa e brutal para qualquer criança (ou adulto), o primeiro contacto de Manuel com pessoas da sua idade fôra anos depois, quando entrou para a escola - até aí estivera fechado em casa, quase como que em prisão domiciliária e quano saía era acompanhado e sob apertada vigilância.
     Foi esse grande clima de amor parental e familiar que fez com que, quando chegou á escola e viu outros espécimes da sua faixa etária, eraa um peixe fora de água, não sabia falar, estar ou lidar com eles. Era um esquisito, um elemento a evitar, um...maluco.
     Tornara-se aquilo que negava ser, não só para a família mas para os outros. No dia em que se apercebeu disto, epifania essa que se poderia dever a um súbito de juízo e maturidade mas que não podia ser nada disso porque segundo família, colegas e afins ele não tinha nem nunca viria a ter nada isso, percebeu que nada do que fizesse (ou deixasse de fazer), ou dissesse (ou deixasse de dizer) iria mudar a opinião do mundo sobre si.
     E a prova viva disso viria anos depois, na adolescência. Com a aprovação de toda a família e escoltado por três dos seus membros, Manuel fôra mesmo numa instituição em regime especial, passando lá o dia e saindo á noite para regressar a  casa. Durante três anos aguentara aquilo, a pressão, a falta de sentimentos por parte da família, a revolta, a vontade de se vingar. Chorara muito, rios e rios de lágrimas, abandonado á frustração de saber que nada podia fazer para mudar a opinião dos outros sobre si, uma opinião por eles formada, sem apelo, agravo ou lógica, sem sequer uma única vez lhe perguntarem porquê. Tão simples, como um porquê pode mudar uma vida.
     Três anos depois saía de vez, com duas ideias vincadas na sua mente: 1º, não era maluco coisíssima nenhuma e 2º, não iria remar contra a maré. Ou seja, se os outros o achaavam maluco, ele não o negaria. Aproveitar-se-ia disso para dizer o que queria e fazer o que queria também, porque aos malucos toda a gente dá um desconto. Manuel não precisava de fazer muito para manter a fachada, só contar com as baixas expectativas que todos tinham a seu respeito, e largar, de vez em quando, umas coisas sem nexo, tipo querer mudar o nome, legalmente, para o seu pseudónimo na Internet, Newman Zero. Sim, ser maluco era a cobertura perfeita para Manuel Silvestre e hoje em dia, quatro décadas aapós o inconclusivo teste do sobredotado, a fachada, a mentira, a máscara, a ilusão, mantinha-se viva e recomendava-se, o que lhe permitia lucrar com isso. Silvestre desfalcara dois dos seus empregos, fizera fraudes com cheques sem cobertura, bancos, seguradoras, casas de penhores, empresas de crédito, etc, etc. Por andar nesse meio, Silvestre descobriu a verdade sobre o casal Yudo. Por andar nesse meio, a pior coisa quee tivera que fazer, para não ser preso, fôra atropelar uma pessoa.
     Mortalmente.
     Mas isso é uma outra estória, para uma outra ocasião...
    

1 comentário:

  1. Há sempre uma ovelha negra, tens razão! Se bem que às vezes acho que na micro família há duas! Continua com estas maravilhosas estórias.

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