terça-feira, 24 de julho de 2012

GRANDE DOMÍNIO DO ESFÉRICO


            A Megalomania é um sério, grave e historicamente reprovável distúrbio do foro psicológico que, mais cedo ou mais tarde (geralmente muito, mas muito mais tarde) tem nefastas consequências para quem dela sofre. Ou, para os leigos, ‘tá carregadinha de mau Karma. Acaba sempre em Fezes. Sempre. Fezes. Hitler, Napoleão, Alexandre, César. Pensem nestes quatro homens de dúbias tendências sexuais, no que foram e no que acabaram.

            Ora, o Sr. Mário e a sua esposa São José eram megalómanos, e faziam-no bem, como já foi dito noutro lado. Isso, de si, já era uma proeza, pois se pensarmos bem, querer dominar o mundo é coisa que requer a chamada “micro-gestão” de inúmeros campos, aspectos, facetas e dinâmicas, e, como diz o povo sabiamente, quando se toca muitos burros ao mesmo tempo, há sempre um que fica para trás. É tarefa árdua, rigorosa e improvável de se conseguir, mas plausível, e o segredo é só um: informação.

            Quem tem a informação, tem o poder. Ora como toda a gente e suas mães confiava, adorava, diria mesmo quase idolatrava, este casal maravilha, essa mesma toda a gente (e suas mães) vinham contar-lhes tudo o que precisavam saber e muito que não. Por isso, a informação já eles dominavam.

             E, com informações certas, dominavam todos quantos queriam.

             Otávio e Otília Queirós, por exemplo, davam-se muito bem com eles. Podia até dizer-se que eram amigos, não fosse o facto de um megalómano não tem amigos e sim recursos. E os Queirós eram um rico recurso para Mário e São José. O casal Queirós estava a ficar velhote, sem paciência e a caminho de sem discernimento, e como tal, entregara a gestão e admnistração do seu chorudo património, que não só mantinha mas o fazia crescer. Muito ou pouco? Não se sabe. E tão bom procurador era o Sr. Mário que os Queirós tinham que lhe pedir autorização para dispôr das suas contas bancárias pessoais, de cada vez que queriam comprar algo mais caro ou importante. Acabavam por nunca comprar nada porque, diziam, «não queriam estar a incomodar o sr. Mário».
            

              Essa não era a única conta bancária que administravam. Uma tia de Mário, Ivone, também mandava os extratos da sua conta a Mário, regularmente, para que ele lhe desse o seu parecer. Quem não gostava da ideia era a filha de Ivone, Isaura, que tinha conta conjunta com a mãe e não gostava nada que o primo soubesse tanto da sua vida. Mário soube do descontentamento da prima e depressa lhe «aplicou um corretivo», fazeno-lhe ver quem manda. Quando o marido de Ivone, Jaime, morreu, o sr. Mário, a pedido dela, foi tratar das partilhas, de acordo com a última vontade do falecido. E tudo fez como manda o figurino, menos a parte de dar á prima o que era seu por direito. Em vez disso, pôs a parte de Isaura no nome da filha (menor) dela, Fernanda, que só lhe podia tocar quando atingisse a maioridade. Só isso deitou abaixo qualquer protesto de discordância da parte de Isaura e aumentou o poder de Mário e São José sobre ela a tal ponto que, quando Isaura passavaa fins-de-semana em casa deles, em visita, até recolher obrigatório tinha, ou pior, fechavam o cão, o grande JC, na marquise que dava para o quarto de hóspedes onde Isaura dormia, o que fazia com que o animal passasse a noite aa ganir e não a deixasse dormir.
             

               Todavia, a prova definitiva da falta de escrúpulos daquele casal foi quando se descobriu que eles desviavam objectos de arte destinados ao negócio de Íris Covas.
             

                Mas isso é uma estória para outra ocasião...

sábado, 14 de abril de 2012

Tantas vezes vai o cântaro á fonte...

     A Ovelha Negra, espécime rara entre os ovídeos mas comum entre famílias, é sempre motivo de interesse por ter protagonismo em estórias hilariantes, inovadoras e originais, principalmente porque, apesar do herbívoro cognome, não vai em carneiradas.
     Motivo de interesse, bem entendido, para os outros, o resto, o mundo em geral. No seio da família são persona non grata e assunto a ser ignorado e evitado como se a dita e negra ovelha não existisse.
     Em termos leigos, uma ovelha negra é como uma zanga por causa de partilhas: em todas as famílias há uma.
     No caso em questão, esse papel cabia a Manuel Silvestre, excêntrico, maluco, psicopata, preguiçoso, despassarado, pedrado, bêbado, lunático e a um passo de ser trancado em uma qualquer instituição psiquiátrica, diziam eles. E, de início, até tinham razão.
     Ora bem, todos os pais acham que os seus filhos são especiais, os melhores, o supra-sumo da batata. Não há criança no mundo que supere a sua. Os pais de Manuel levaram esse conceito á letra e quiseram saber até que ponto era o especial o seu rebento. Levaram-no muito novo para ser testado para saberem se era uma daquelas crianças sobredotadas. Os testes foram inconclusivos e os pais, dotados de bom-senso e lógica, decidiram que, se o filho não era um génio, só podia ser louco. E, desde esse dia em diante, foi essa a ideia que foi incutida em Manuel, com tal ênfase e insistência que, durante muitos anos, quando a criança se portava mal, a ameaça de estimação era "olha que te vou internar no Júlio de Matos!".
     Talvez também devido a essa premissa enraizada, ou do facto de viverem no centro da cidade, perigosa e brutal para qualquer criança (ou adulto), o primeiro contacto de Manuel com pessoas da sua idade fôra anos depois, quando entrou para a escola - até aí estivera fechado em casa, quase como que em prisão domiciliária e quano saía era acompanhado e sob apertada vigilância.
     Foi esse grande clima de amor parental e familiar que fez com que, quando chegou á escola e viu outros espécimes da sua faixa etária, eraa um peixe fora de água, não sabia falar, estar ou lidar com eles. Era um esquisito, um elemento a evitar, um...maluco.
     Tornara-se aquilo que negava ser, não só para a família mas para os outros. No dia em que se apercebeu disto, epifania essa que se poderia dever a um súbito de juízo e maturidade mas que não podia ser nada disso porque segundo família, colegas e afins ele não tinha nem nunca viria a ter nada isso, percebeu que nada do que fizesse (ou deixasse de fazer), ou dissesse (ou deixasse de dizer) iria mudar a opinião do mundo sobre si.
     E a prova viva disso viria anos depois, na adolescência. Com a aprovação de toda a família e escoltado por três dos seus membros, Manuel fôra mesmo numa instituição em regime especial, passando lá o dia e saindo á noite para regressar a  casa. Durante três anos aguentara aquilo, a pressão, a falta de sentimentos por parte da família, a revolta, a vontade de se vingar. Chorara muito, rios e rios de lágrimas, abandonado á frustração de saber que nada podia fazer para mudar a opinião dos outros sobre si, uma opinião por eles formada, sem apelo, agravo ou lógica, sem sequer uma única vez lhe perguntarem porquê. Tão simples, como um porquê pode mudar uma vida.
     Três anos depois saía de vez, com duas ideias vincadas na sua mente: 1º, não era maluco coisíssima nenhuma e 2º, não iria remar contra a maré. Ou seja, se os outros o achaavam maluco, ele não o negaria. Aproveitar-se-ia disso para dizer o que queria e fazer o que queria também, porque aos malucos toda a gente dá um desconto. Manuel não precisava de fazer muito para manter a fachada, só contar com as baixas expectativas que todos tinham a seu respeito, e largar, de vez em quando, umas coisas sem nexo, tipo querer mudar o nome, legalmente, para o seu pseudónimo na Internet, Newman Zero. Sim, ser maluco era a cobertura perfeita para Manuel Silvestre e hoje em dia, quatro décadas aapós o inconclusivo teste do sobredotado, a fachada, a mentira, a máscara, a ilusão, mantinha-se viva e recomendava-se, o que lhe permitia lucrar com isso. Silvestre desfalcara dois dos seus empregos, fizera fraudes com cheques sem cobertura, bancos, seguradoras, casas de penhores, empresas de crédito, etc, etc. Por andar nesse meio, Silvestre descobriu a verdade sobre o casal Yudo. Por andar nesse meio, a pior coisa quee tivera que fazer, para não ser preso, fôra atropelar uma pessoa.
     Mortalmente.
     Mas isso é uma outra estória, para uma outra ocasião...
    

sábado, 3 de março de 2012

Cem dependentes sem dependentes

     Mário Pardal, duplamente presidencial no nome e avícola comum no apelido, era honrado, digno e honesto. Era uma daquelas pessoas "anais" nos hábitos e costumes qual Phileas Fogg lusitano, de tal maneira que quase se podia acertar um relógio por eles (os hábitos e costumes, bem entendido). Seguia protocolos á letra, regras á risca e leis Ipsis Verbis. Na sua mais sincera opinião (pois raros eram os casos em que a sua opinião não era sincera, mesmo...), era essa sua anal maneira de ser que caracterizava o homem íntegro e respeitado pelos seus pares. 
     Ora todos nós conhecemos pelo menos uma pessoa assim, e a maioria das vezes são aborrecidas, desinteressantes e vulgares a tal ponto que nem se dá por elas, tanto sem querer como de propósito. Evitam-se e pronto. A proeza sobre-humana de Mário era que ele conseguia ser considerado...digamos, um gajo porreiro pelos seus largos amigos e família. Todos lhe queriam falar, todos queriam estar com ele, todos o adoravam e todos queriam a sua opinião ou conselho, o que contraria o que ali em cima dissemos de pessoas com personalidade deste tipo. Como ele o fazia não se sabe. Mas pode-se especular.
     A mais notória capacidade sobre-humana dele era consequência dessa mesma proeza, pois toda a gente, com excepção da esposa, o tratava, no dia-a-dia, por Senhor Mário. Nunca somente por Mário, Márinho ou Márocas.  Era o tipo de respeito que o homem provocava em quem o rodeava. Ninguém conseguia tratá-lo de outra forma, mais coloquial e familiar e, se se perguntasse, a quem o fazia, a razão de o fazer, também ninguém sabia responder. Não havia razão lógica quantificável, mensurável, e outras coisas acabadas em Ável exceptuando Respeitável, porque era isso que o Sr. Mário era e as pessoas tratavam-no assim e pronto, não obstante ele se fartar de dizer a todos que era simplesmente Mário, o Senhor estava no Céu (Cliché que causava grandes ofensas aos Ateus e a certos e determinados extremistas religiosos...), mas ninguém conseguia, tal como muito provavelmente ninguém havia conseguido tratar por "tu" Adolf Hitler.
     O Sr. Mário era casado com São José Pardal, mulher de barba rija (outro cliché, quando na verdade, era o buço que era rijo e de rápido crescimento...), segurança privada, guarda-costas sem arma, acessório que era desnecessário, já que um murro bem dado por ela num antagonista variava, em ordem crescente de intensidade, entre um quarto de hora sem sentidos, a severo traumatismo craniano com possível coma. Eram essas habilitações profissionais que a faziam muito procurada por VIP's e evitada por Paparazzi. Era uma mulher alta e atlética, cuja massa muscular não deixara os atributos físicos femininos se desenvolverem ao ritmo normal. Toda ela era um conflito em si mesma, em que a cabeça era parte dominante e o coração a parte passiva, e a prova disso era o facto de não ter filhos nem sequer pensava em tê-los. A gravidez poria em risco a sua forma física e em hiato a sua profissão, e se havia coisa que São não era, era idiota. Cruzava-se com pessoas importantes no seu trabalho e pensava, refletia, ponderava e planeava, e um dia iria colocar o seu plano em marcha, fosse ele qual fosse, apesar de todos os planos jamais feitos na história da humanidade se resumiam a uma coisa: independência. Financeira, pessoal, profissional, qualquer uma. Mas ela viria, o plano correria sem percalços, sem imprevistos, e eles seriam livres. Ela e o seu Mário.
     Mário, por seu lado, não ficara mínimamente transtornado ou depressivo por a sua mulher não lhe dar filhos. Ele já tinha duas filhas de uma ligação anterior da qual não gostava de falar com ninguém. Não conhecia os planos, as ideias, os projectos secretos da esposa (que por alguma razão eram secretos), mas não dormia na forma. O casal tinha grandiosos planos a longo prazo para atingir o mesmo objectivo, mas nenhum dos dois sabia das ideias do outro e, se São tinha VIP's como "ferramentas", o Sr. Mário tinha a família.
     Independência. Era essa a chave. Pois se o sr. Mário tinha muita gente dependente dele,  se todos lhe queriam falar, todos queriam estar com ele, todos o adoravam e todos queriam a sua opinião ou conselho,  era através disso que ele ganharia a sua independência. Como o faria? Isso é uma outra estória, para uma outra ocasião.  

domingo, 26 de fevereiro de 2012

...não degenera...

     Rosete Manteigas era uma mulher orgulhosa. Sabia-o, estava ciente e era conhecedora disso. O que também sabia, consequentemente, era que o orgulho era considerado um pecado mortal, mas isso não a preocupava em absoluto. Nunca fôra uma pessoa religiosa, apesar de não ser Ateísta. A sua filosofia acerca de Deus, era mais do tipo se é que existe, deixa-O lá estar, eu não O chateio nem Ele a mim. Se não existe, tanto melhor. O mais parecido com Deus que Rosete tivera haviam sido os seus pais que, além de serem crentes na Suprema Divindade, eram crentes ainda mais fervorosos na única filha. Protegeram-na e mimaram-na de tal maneira que a rapariga, ao invés de virar uma tótó com medo de tudo e todos por seus pais a terem protegido, básicamente, da vida em si, revelou-se uma presumida determinada e teimosa com força de vontade quase capaz de mover montanhas. Tratada como uma Princesa, sim, mas tornou-se uma Catarina como d'A Fera Amansada de Shakespeare. Fera essa que, contráriamente á da peça teatral, nunca amansaria.
     Tinha Rosete, portanto, orgulho. Orgulho no seu carácter, na sua profissão de Delegada de Propaganda Médica, nos seus bens, a maioria adquiridos sem a ajuda dos pais ricos e na sua filha Odete, que decidira seguir as pisadas profissionais da mãe e, no meio, não havia quem igualasse aquela dupla em sucesso, dinamismo e influências. Eram a dupla dinâmica (diziam elas), mas também eram as coquetes (dizia a família), sobretudo porque já desde a avó materna, as mulheres tinham nomes acabados em Ete. Suzete-Rosete-Odete.
     A dupla dinâmica quase se tranformara em trio, um dia que Rosete fez sociedade no ramo da Propaganda Médica, com uma profissional Luso-Indiana chamada Lakshmi Sinore. Montaram uma empresa e o negócio corria de vento em pôpa, o que provocou o que esses êxitos sempre provocam: Inveja em terceiros. Esse terceiro, neste caso seria Odete. Sentindo-se relegada para segundo plano, a mais jovem das Manteigas congeminou e executou um plano. Foi aliciando clientes da empresa a lidarem somente com Lakshmi, manipulando-os para que estes subentendessem que a própria mãe, se não era corrupta, estava a um passo disso. Depois fez com que Rosete o descobrisse, fanzendo-a crer que a sócia estava a negociar com os clientes para fazer desfalques nas finanças da empresa.Rosete terminou a sociedade, o que a obrigou a cumprir o contrato entre as duas e a dar metade e Lakshmi, ficando pior do que antes de fazer sociedade. Não tivera outro remédio senão voltar a formar a velha dupla dinâmica com Odete, que saíra ilesa  e  insuspeita deste vil acto de sabotagem familiar. 
     Como é notório, óbvio e evidente, apesar da sua presunção, determinação e teimosia, Rosete era ingénua, á sua maneira. Em certos aspectos da sua vida, ela vivia em negação permanente pois se profissionalmente era inigualável, social e familiarmente era sofrível, se não mesmo medíocre. Prezando-se de saber de tudo no seu ramo de trabalho, Rosete (e Odete também, por arrasto) não sabiam que quase ninguém na família as respeitava, sendo que a maioria só tentava uma aproximação quando tinham segundas intenções, querendo aproveitar-se dos seus contactos ou influências, e afastando-se logo de seguida. Aqueles que prestavam atenção, viam isso nitidamente. Só elas é que não viam ou não queriam ver.
     Mesmo o caso da relação amorosa de Odete com um homem casado, que á primeira vista não passava de amor, paixão e esses clichés todos, nada mais fôra que um engenhoso golpe com altos retornos financeiros. Mas isso é uma outra estória, para uma outra ocasião...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Júpiter / Saturno

     

Com pompa e circunstância foi celebrado o regresso ao país do casal Yudo, Pedro & Adelaide. Sempre que isso sucedia, a família ia (quase) toda á estação ferroviária esperá-los, submissos e fiéis, sorrisos tatuados no rosto e rasgados elogios impressos no espírito, que só desapareciam quando se iniciava a batalha.

A “batalha” era o debate que todos tinham uns com os outros para saber a casa de quem iam eles almoçar nesse dia. “Á minha”, dizia um. “Não, á minha. Á tua já foram há seis anos”, respondia outro. “Não, á minha, que o Faisão já está no forno”, metia um terceiro. Por fim, os Yudos intervinham, apaziguavam e se decidiam pela casa mais próxima da estação.
Depois, não só iam eles os dois, mas toda a gente que os tinha lá ido esperar, e voltavam os sorrisos tatuados e os elogios impressos, a submissão e a fidelidade.
A verdade, no entanto, era nua, crua e outra.  
Para começar, os Yudos não regressavam do estrangeiro coisa nenhuma. Tinham liberdade condicional de Vale de Judeus, onde eram clientes regulares por uma miríade de burlas e esquemas de engano, subterfúgio e vigarice. Passavam anos a fio sem vir cá fora e, quando a conseguiam, á liberdade condicional, era graças a muito suborno lá dentro. É claro que, quando os subornados percebiam que o dinheiro, ou os favores, não vinham, os Yudos eram caçados e aprisionados novamente, num prazo máximo que não excedia os 3 meses.
     As únicas pessoas a quem eles conseguiam enganar sempre era a família, que lá os ia receber á estação, onde eles diziam ter chegado de Londres, Paris, Nova Iorque ou Roma, quando na realidade vinham era da prisa para o terminal, entrando por uma porta de um comboio acabado de chegar e saindo pela outra, defronte da família. O resto era teatrinho.
     E, para terminar, a adoração da família, os sorrisos e OE elogios eles próprios tinham um propósito. A hora depois do almoço, quando os Yudos abriam as malas de viagem que consigo traziam e a malta toda quase se perfilava para receber as prendas, recuerdos e souvenirs que os dois lhes tinham trazido, se bem que como tinham eles tempo para comprar, roubar ou seja-lá-o-que-fôr, prendas, recuerdos e souvenirs, é outra coisa que se nos escapa á compreensão.
     Era um acordo subentendido: a família deixava-se ser enganada na condição de as prendas, recuerdos e souvenirs continuassem a surgir de dentro daquelas mágicas malas de viagem tão pesadas que pareciam transportar corpos de 12 pessoas esquartejadas lá dentro.
Isto até ao dia em que aquele velho axioma entrou em acção: “Pode-se enganar muita gente por pouco tempo ou pouca gente por muito tempo. Não se pode é enganar toda a gente todo o tempo”. O dia, mais precisamente, em que Manuel Silvestre, graças a dizer o que queria, ouviu o que não queria, e descobriu a verdade.
     Mas isso é uma outra história, para uma outra ocasião...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Dramatis Personae

     O enfarte do Miocárdio foi fulminante. O vasto homem morreu quase instantaneamente. A última imagem que fica dele, tirando o cadáver no caixão, no dia do funeral, é a da sua vasta figura caída no chão, de lado e de Sunga azul-celeste como único vestuário, olhos abertos, boca escancarada e golfadas de sangue que dela saem. Não há espasmos, tremores, nada. Só o escuro, viscoso líquido que cheira a Cobre, embora vagamente, cobre o parquet, qual mortalha côr-de-vinho, embora porque sangraria da boca uma vítima de enfarte do Miocárdio é algo que se nos escapa.
     Para ele, tinha-se acabado tudo. Para os que cá ficam, não. O vasto homem deixara a viúva, Íris Covas, uma pseudo-negociante de arte com pretensões de Jet-Set, mas posses de classe média-baixa, sozinha, com dois filhos, Manuel Silvestre, o mais velho, excêntrico ao ponto de mudar legalmente o seu nome para Newman Zero, o seu pseudónimo internético; e a mais nova, Alexis Romeu, comentadora política na imprensa. Alexis tinha uma relação com Bruno Gesso, o algarvio mais influente do país (dizia ele...), e o casal poucas vezes se encontrava, segundo a prima Natália Vidal, consultora financeira que tinha ganho experiência financeira suficiente na Bolsa para trabalhar em exclusivo para a abastada (dizia ela...) Mary O'Dey, britânica de nascimento e portuguesa por opção.
     Do outro lado da família, havia pessoas ainda mais interessantes (que é como quem diz, polémicas...), como a tia Rosete Manteigas, delegada de propaganda médica, e sua filha Odete, que lhe seguia as pisadas, profissionalmente. Rosete e Odete eram unha com carne com o casal de afilhados de Íris, Mário (Mário, não. Senhor Mário. Ninguém conseguia tratar o homem por tu, ninguém sabia explicar porquê...), e sua esposa São José, segurança privada que fazia uns biscates como "cobranças difíceis". Tinham um cão sem raça definida, mas pêlo abundante a quem chamaram Jesus Cristo, nome que levantava demasiadas sobrancelhas, por isso foi abreviado para Grande J.C. . O senhor Mário, São José e a restante família, no entanto, gravitavam em órbita de dois distintos (dizia a família...) personagens, Pedro e Adelaide Yudo, cheios de conhecimentos influentes, muito cosmopolitas e viajados (diziam eles...), mas que na realidade passavam muito mais tempo presos em Vale de Judeus por burlas e fraudes que em liberdade.
     Mas nada é aquilo que parece, e vigaristas havia mais, na família.
     Mas isso é uma outra história, para uma outra ocasião...